::::OS DIÁRIOS DE MAYBELL::::


CAPÍTULO 02

O ÊXODO. 

            Júlia correu rapidamente para a fila de embarque, havia perdido o horário logo cedo. Ainda bem que suas malas estavam todas prontas e ao pé da escada, precisou somente tirar o pijama, pôr a roupa, a jaqueta e os tênis para poder sair pela rua ensopada pela chuva da madrugada. Despediu-se na noite anterior de todos os que viveram com ela durante seus 20 anos. O Orfanato Crianças do Sol fora sua única casa durante toda a vida. Foi lá que aprendeu a andar, falar, ler e escrever. Mafalda, a diretora, cuidara muito bem da menina e ajudou-a a economizar e criar uma pequena poupança para poder viver tranqüila quando saísse de lá. Os longos anos se passaram e, semanas atrás, Júlia foi chamada até a sala de Mafalda.

_Pode entrar – falou a diretora, trajada num longo vestido laranja com gola branca.

_Olá professora. Recebi seu recado e vim logo ver o que a senhora queria. – Falou Júlia ao entrar pela sala grande e aconchegante. A professora indicou uma poltrona próxima à lareira acessa e quente.

_Lily, minha garotinha! Vinte anos que cuido de você todos os dias e você sabe que tenho você como a minha filha. – a Professora deu um breve sorriso triste – acho que chegou a hora de entregar tudo o que tenho sobre você.

_ Sobre mim? Como assim professora? Não entendo o que a senhora diz.

_ Meu anjo, todas as crianças que completam vinte anos precisam seguir suas vidas. Você não pode mais morar aqui conosco. É por isso que vou entregar-lhe todas as suas economias – a professora pegou um cartão de crédito dentro de sua gaveta – aqui você tem o bastante para poder viver tranqüila durante mais ou menos um ano, não gaste tudo, pois ficarei muito preocupada com o seu bem estar.

_ Prof… – os olhos marejados de Júlia impediam que ela falasse alguma coisa. Sair do orfanato era algo praticamente impossível de acontecer a ela.

_ Tenho mais esse pacote para te entregar – ela entregou para Júlia uma caixa com uma grande rosa entalhada na madeira, havia um grande e pesado cadeado que fechava a fenda entre a tampa e a base.

_ De quem é essa caixa professora? – a menina pergunta atônita.

_ Veio com você na noite em que a encontramos na praça. Junto com as poucas peças de roupa que tinha, enrolado num belo cetim vermelho… Sim, é aquele que usamos como cortina para o seu quarto – falou a professora quando viu a cara de espanto de Júlia – pegamos tudo, decidimos guardar a caixa e entregar-lhe somente quanto tivesse entendimento.

_ Mas, professora, para onde eu irei? Não tenho casa e muito menos família! As únicas coisas que tenho são minhas roupas e uma caixa trancada! – Júlia já não sabia como fazer para conter as lágrimas que estavam prestes a escorrer pelos seus olhos.

_Júlia, uma coisa nunca lhe contamos. Além da caixa, junto com as coisas havia uma carta. No papel estava escrito apenas uma coisa: GreenWood. – a professora percebeu que o tom de mistério não saíra da forma como esperava, mas via no rosto da jovem uma expressão diferente, talvez de tristeza por ela nunca ter contado isso antes. – Lily, seu que deveria ter contado, mas não queria que você tivesse isso como único objetivo em sua vida. Eu queria que fosse mais do que uma órfã em busca de uma mãe ou um pai, queria que você fosse forte para enfrentar esse momento!

            Naquela hora Júlia levantou-se e foi em direção a porta. Antes de fechar fez uma única pergunta. “E a Chave?”. A professora abaixou os olhos e balançou a cabeça, a jovem entendeu que não havia chave para abrir e descobrir o que havia escondido dentro.

            A fila estava imensa, se ela tivesse chegado no horário certo já deveria estar sentada tranqüila. O embarque para Greenwood foi planejado meticulosamente durante a semana, não poderia haver nada de errado, nem mesmo um pequeno atraso iria fazer com que ela desistisse da idéia de descobrir o que estava escondido na caixa. Júlia tinha certeza de que encontraria a chave em algum lugar da cidade, talvez presa no colar de sua mãe, quem sabe na gaveta do seu pai ou até mesmo na pulseira de um doce jovenzinha que pudesse ser sua irmã (se é que ela tivesse uma irmã).

Embarque.

Depois de quinze minutos na fila e um sensor de metais que apitava em cada bolso de Júlia, finalmente sentou-se tranqüila na poltrona vinte e dois. Pegou seu MP3, colocou os fones no ouvido e fechou os olhos ao som de Damien Rice e Jack Jonhson. Como gostava de sentir-se a caminho de uma resposta para as suas dúvidas recentes, que logo seriam esquecidas no colo de um familiar que pudera vir a conhecer. Com os olhos ainda fechados, começou a sentir um transe tocar de leve seu corpo, em poucos minutos já estava dormindo.

O ônibus passou por grandes montanhas, cidades muito escuras e cidades muito luminosas, carros suntuosos e outros menos providos de decência. Horas a fio passaram-se até chegar em uma cidadezinha rural, ainda com casas antigas, com suas famílias tradicionais e quadradas. Júlia não percebeu, ainda dormia tranquilamente. Lentamente chegou no centro comercial, um pouco mais desenvolvido, exceto pelas pessoas que olhavam o transporte que, não tão freqüentemente, chegava à cidade. As crianças paravam para comentar, as moças riam entre si e os rapazes erguiam as cabeças para ver a bela pintura do ônibus que estava estacionando.

_Moça, chegamos – falou o motorista.

            Júlia acordou assustada. Olhou para todos os lados no ônibus vazio, levantou-se e desceu rapidamente. A sensação de ter chegado foi um…

_Cuidado! – algo ou alguém esbarrou na jovem, fazendo-a derrubar as malas que se abriram e espalharam roupas e livros pela calçada.

_ Mas o que é isso? – Falou a menina.

_ Desculpe, posso te ajudar a levantar – um rapaz belo, de olhos azuis e cabelos estranhamente negros ergueu a mão para Júlia. Foi o rapaz mais belo e gentil que vira em toda a sua vida.

              


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