::::OS DIÁRIOS DE MAYBELL::::


CAPÍTULO 05

DE MENDIGO À MICHÊ. 

            Júlia envolveu-se em um mar de pensamentos. Estranhos. Porque perdera todo aquele tempo atrás de uma estátua? E ainda por cima sem um objetivo plausível pára isso? Chegou perto do pequeno chafariz e olhou ao fundo. Haviam algumas moedas de 1 centavo, mas muitas delas deviam ter sido levadas pelos mendigos que dormiam no meio do mato mal cuidado.

_ É a nascente do rio que corta a cidade. Ele começa aqui e, com a chegada da cidade foram canalizando cada centímetro até ele desbocar no rio St. Carlos. Um homem levava a sua caravana até encontrar um lugar em que ele pudesse ter água e comida à vontade. Quando chegou aqui, encontrou uma pequena valeta por onde saia água pura. Seu cavalo foi o primeiro a beber, era velho e estava muito doente. Ao terminar ele deu um alto e grave relincho de alegria.  Todos ficaram felizes, montaram suas estadias e fundaram essa primeira ponta de GreenWood. Anos mais tarde começaram a canalizar o rio e sua fós virou essa escultura. Tudo o que termos ao nosso redor pertencem ao bairro do Cavalo Velho, um lugar que com o passar dos anos ficou escuro, sujo e ilícito por todos os seus aspectos sejam eles positivos ou negativos

            Fábio falou de uma forma magistral, como se tivesse estudado anos e anos para poder explicar aquilo em um único momento de sua vida. A menina olhada atônita para tudo ao seu redor sem ao menos esboçar uma única palavra de aprovação ou desacordo.  Estava surpresa: sim, estava. Mas não sabia saber se era pelo choque que recebeu ao ver que uma cidade tão interessante poderia ter uma negritude tão árdua. Andou com o rapaz pela rua mal pavimentada, pulando alguns buracos cheios de água e que poderiam ter uns profundos 40 cm. As pessoas olhavam para a “intrusa” que infiltrava por entre os mendigos suados e fedorentos.

_Oi belezinha, que tal uma bebida bem gostosa lá em casa? – falou um dos bêbados que estavam jogados na porta de um dos bares antigos. Fábio abraçou-a pela cintura, para que eles entendessem que ela estava À sua companhia.

            O odor putrefato que saia dos bueiros enjoava a menina. A cada passo ela sentia a necessidade de cuspir ou de vomitar, mas sua educação não permitiu que fizesse isso. Respirou fundo e continuou a andar.

_Por que você me convidou a vir até aqui? Por que marcou de nos encontrarmos em um lugar tão estranho? – perguntou Júlia.

_ É aqui aonde eu moro – Respondeu Fábio – Quis que você conhecesse aonde eu moro para você entender, antes de tudo, quem eu sou.

_Bom, “mindingo” você não é! Bêbado muito menos! A não ser que você seja traficante só pode ser um michê! – Júlia fez uma cara de indagação ao mesmo tempo que afirmava.

_Não. Vou te mostrar o que eu faço.

            Os dois desceram por uma rua estreita e escura. O Lixo transbordava pelos latões e respingos de água dos encanamentos que ligavam aos esgotos caiam pelos ombros dos dois. O nojo era incessante, mas o rapaz mantinha-se incompassível diante a toda aquela sujeita devido ao costume que adquirira durante toda uma vida se espremendo por esses lugares. Andaram até chegar em um casebre mal construído e que, pela aparecia, se batesse um vento fino poderia desabar com tudo que estivesse dentro.

_Entre Júlia. Quero mostrar uma das coisas mais belas que podemos fazer nesse lugar, algo incomparável e que pode nos dar a maior riqueza do mundo. – Fábio abriu a porta do casebre, que rangeu pelo corredor frio e mal iluminado.

            Júlia entrou devagar, ainda com muito medo do que poderia vir à frente. Afinal de contas estava confiando em um rapaz que nunca vira na vida a e cuja procedência não era das mais confiáveis e amigáveis. Sentiu o cheiro doce de maças assadas e pequenos burburinhos vindos do fundo do corredor. Uma porta alta e uma luz aconchegante faziam um par belo e suntuoso. Os quadros marcavam cada passo e cada respirar da garota. Um sentimento leve começou a envolver-la. Chegou próximo à porta e Fábio cortou a frente para poder fazer as honras da casa.

_ Meninada! Trouxe para vocês conhecerem uma pessoa fabulosa! – Fábio de um sorriso belo – Júlia venha… poder vir .

            Quinze crianças vieram ao seu encontro antes dela entrar pelo portal. Meninas com vestidos longos e com seus cabelos bem penteados. Os meninos arrumados com bonés virados para o lado e muito cheirosos, com seus olhos azuis, verdes e castanhos cada um envolveu a jovem num abraço apertado e gostoso. Riam por todos os lados e brincavam sem parar. Sentada na frente da lareira estava uma senhora, curvada sobre seu tricô e olhando por cima dos óculos com armação de metal. Sorria levemente e apresentava uma boca funda pela falta dos dentes, mas mesmo assim possuía uma beleza extraordinária, incontestável. Seus cabelos brancos e longos estavam presos em uma bela trança e usava um longo vestido xadrez preso com o avental pela cintura.

_Olá minha jovem, vejo que o meu querido menino trouxe você para nos conhecer. Bem vinda a minha casa – falou a velha – sente-se aqui, vocês chegaram bem na hora do chá.

            Os dois sentaram-se. Fábio com um sorriso no rosto por ver todas aquelas crianças brincando e chamando-lhe a atenção para dividirem um carrinho ou coisa do tipo. Júlia olhava para a senhora sentada a sua frente, como ela poderia ser tão bela? Tudo o que vira até àquela hora, neste mesmo dia, pareciam tão distantes, praticamente um borrão na história, mas que permaneciam ali em algum lugar. Olhou para as crianças e para tudo a sua volta. O casebre já não parecia mais amedrontador, mas aconchegante e acolhedor.

_Fábio, por que essas crianças vivem aqui? Você mora aqui? – perguntou Júlia ao novo amigo.

_Não, eu não moro aqui – Fábio deu um leve sorriso – aqui é o lugar por qual eu luto. Um antigo orfanato que está há anos passando por necessidades. Cada uma dessas crianças vivia na rua e eu as trouxe para cá. Tia Fátima é quem cuida de cada uma delas e eu procuro ajuda pela cidade para trazer alimentos, roupas e tudo mais. É isso que eu vivo e é para isso que vivo também: para ajudá-las.

_Ele tem feito coisas maravilhosas – falou a Sr. Fátima, libertando uma voz doce e suave – desde pequeno vem me ajudando com muitas coisas e hoje vejo o homem que se tornou e tenho orgulho de ter ajudado seu pai a criá-lo. Antes tão frágil e hoje esse homem imbatível.

            Ficaram mais um tempo conversando a respeito de Júlia e porque ela estava em GreenWood. Ela explicou a respeito de diversas coisas, mas não mencionou o fato de ter vivido em um orfanato também. Há alguns dias isso seria um orgulho, mas depois de ver o Bairro do Cavalho Velho sentiu-se tão péssima em tocar no assunto e tão frágil em falar sobre isso que acabou omitindo isso dos novos amigos. Passou uma tarde maravilhosa, um dia inesquecível relembrando de cada instante que viveu no Orfanato Crianças do Sol. Queria poder ajudar também, queria poder entrar pela batalha pelas crianças, mas primeiro teria que completar a sua própria missão, teria de encontrar a sua família.

            O sol se escondeu por entre as montanhas altas e rochosas que ficavam ao lado da cidade. Aos poucos uma e outra estrela começaram a aparecer e os dois tomaram o caminho de volta para a Pousada Branca. Despediram-se das crianças, passaram novamente pelo caminho estreito, deram a volta pela escultura do cavalo e voltaram para as ruas movimentadas, limpas e iluminadas da cidade alta. Fábio levou Júlia até os portões principais da mansão, despediu-se.

_Pela manhã eu passo por aqui, se você estiver afim poderei mostrar para você o resto da cidade – Falou o rapaz.

_Talvez, eu estava pensando em primeiro me organizar amanhã. Se caso der certo poderemos continuar o passeio – respondeu Júlia, sua vontade de continuar conversando era imensa, mas a responsabilidade de traçar um objetivo na cidade era maior ainda.

_Tudo bem então, combinaremos amanhã – apertaram as mãos, deram um olhar amistoso e separaram-se, cada um para sua casa.

            Como eram interessantes essas coisas de cidades distantes. Tantos mistérios e coisas mirabolantes. Foi o que Júlia pensou enquanto subia o caminho que levava até a porta do Hall. Subiu as escadas tranquilamente, cruzou a sala de estar e foi até a cozinha. Leulália estava lá, com a janta quente posta a mesa à espera da jovem.

_Pelo que vi o dia foi produtivo – falou a criada com um sorriso largo no rosto – venha, coma o macarrão especial que fiz para você. Fiz de sobremesa um belo sorvete de uva-passa.

            Como Júlia gostava de uva-passa, o cheiro e o gosto faziam-lhe lembrar da infância alegre e movimentada que tivera no orfanato. Como queria voltar a ser criança, despreocupada com os problemas e alegre até no meio da mais pura tristeza.


Sem comentários ainda até o momento
Deixe um comentário



Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>