O DÍÁRIO.
Júlia passou os demais dias pensando a respeito da caixa que recebera da professora Mafalda. Havia tentado todas as maneiras para abrir, mas foram por água abaixo. Não pesava muito, portanto ela havia chegado à conclusão de que haviam papeis, talvez fotos ou até mesmo cartas de sua mãe. Quando cansou da batalha com a caixa, largou-a em um canto do quarto junto com a pilha de roupas que estavam para lavar. Agora o que deixava a jovem aflita eram os sonhos estranhos a que vinha tendo durante as intermináveis noites de calor em GreenWood.
Cada noite um sonho, mesmo que breve, mas sempre com as mesmas coisas, os mesmos lugares e pessoas. Júlia achava incomum, mas mesmo assim, virava-se na cama e voltava a dormir. Nesta ultima vez ela corria pelo corredor do terceiro andar da mansão. Parava em uma porta e olhava para a escada que dava ao sótão. Quando ela cruzava o portal via flashs próximo ao Cavalo Velho, um rio e depois um grito frio. Acordou suada, respirando rápido e muito cansado. Levantou-se.
O mármore da escadaria que levava ao Hall estava gelado e refletia levemente o vitral da cúpula com pequenas estrelas e uma lua brilhante. Ouviu passos na cozinha.
_Olá – Falou a jovem enquanto cruzava a porta da cozinha e encontrou a dona da pousada. Uma mulher alta e magra, com seus cabelos escorridos e curtos muito bem tingidos de um vermelho vivo. Vestia um belo roupão de seda chinesa adornado com brilhantes na manga. Os olhos azuis e penetrantes fixaram-se em Júlia e um sorriso grande, daqueles que dividem gengivas e dentes com o enrugar da ponta do nariz.
_Olá Júlia. É esse mesmo seu nome não é mesmo!? – Júlia confirmou com um sorriso – Há tempo que eu queria te conhecer. No dia em que você chegou acabei precisando ir a uma viagem resolver alguns problemas, mas graças a Deus, já os resolvi – as duas riram – Está gostando da estadia? Precisa de alguma coisa?
_O lugar é ótimo, senhora… Senhora?
_Marie. Chamo-me Marie. Não precisa me chamar de Senhora.
_Marie, o lugar é ótimo. Tudo em perfeita ordem, não preciso de nada no momento. Estou a procura da minha família aqui na cidade, e quase todos os dias faço longas caminhadas por lugares que talvez os conheçam. Alias, não sei de nada a respeito da minha família, então meu amigo Fábio me ajuda com algumas coisas.
_Interessante. Leulália me falou de você, que foi criada em um orfanato. Enfim, estou cansada, para conversarmos com mais calma vou dormir e logo cedo nós poderemos dar um belo passeio pelo jardim, posso mostrar-lhe a minha estufa. Essas viagens são muito cansativas.
_Tudo bem Marie. Logo cedo sairemos então – Júlia sorriu para a dona da mansão. As duas cumprimentaram-se e a jovem ficou sozinha na cozinha comendo um pão Frances recheado com patê e bebendo um grande copo de leite frio. Ficou um bom tempo ali, sozinha e olhando para a janela em que se podiam ver as montanhas por onde o sol despontava pela manhã. Passou-lhe novamente pela cabeça os sonhos que tivera, levantou-se e foi até o hall. Olhou em volta e subiu lentamente até o terceiro andar.
O terceiro andar era o menos usado e, portanto, o que recebia menos atenção de limpeza. Possuía dois corredores que levavam aos cômodos que ficavam a direta da mansão e um que levava aos depósitos e ao sótão ficava à esquerda. Júlia andou lentamente até a porta do sótão e tocou a maçaneta fria.
Trancada.
Com o coração batendo forte e sem saber o porquê, a menina desceu rapidamente e, na cozinha, pegou o molho de chaves de Leulália. Cansada por subir correndo os três lances de escada e andar por todo o corredor até a porta do sótão. Tentou usar todas as chaves que pôde, mas apenas na penúltima chave ouviu o clique da porta se abrindo. Virou a maçaneta e empurrou a porta. Não sabia o motivo pelo qual fazia aquilo, mas queria de vez por todas entender o que queriam dizer os sonhos que tinha na mansão, em especial o desta noite. Subiu a escada de madeira que em cada passo rangia nas beiradas como fosse se partir.
Acendeu a Luz.
O sótão estava sujo, uma leve camada fina de poeira deslocou-se quando ela abriu a porta que rangeu brevemente. Era um cômodo grande e haviam várias coisas entulhadas por todos os cantos. Algumas cobertas com lençóis, outras apoiadas sobre a parede e muitas com teias abandonadas pelas suas antigas habitantes. Júlia olhou coisa por coisa, era estranho como o sonho a levara até um lugar sem nada para oferecer. Virou-se para sair e voltar para sua cama que, nessas horas, já devia ter voltado a ficar gelada. Foi quando viu preso a parede um quadro de uma moça com a pele levemente rosada, cabelos escuros e apoiados educadamente no ombro esquerdo, seus olhos claros e azuis fitavam Júlia e um belo sorriso mostrava que a adolescente vivera os melhores dias da sua vida quando aquela obra foi feita. Abaixo havia uma escrivaninha de mogno e, diferente de todas as outras coisas, ainda estava limpa. Abriu lentamente a gaveta e encontrou um velho livro com as páginas amareladas. Começou a ler a primeira página.
Diário de Maybell, “Que essa seja uma orelha por onde o poeta saiba se o amam ou se dele falam mal” Filha, amo-te de todas as formas. Sua mãe.
Ao terminar de ler isso, Júlia apoiou o diário sobre a mesa e foi bisbilhotar no restante de coisas que estavam na gaveta. Tirou uma escova de cabelos, um vidro de perfume, um lápis e ao fundo uma fotografia da mesma garota do quadro ao lado de um jovem alto e que, para Júlia, era familiar como se ele já estivesse presente em sua vida há algum tempo. Pegou o retrato e, olhando logo abaixo ficou atônita, a mesma rosa entalhada na caixa que recebera da Professora Mafalda estava lá, no mesmo tamanho e mesmo desenho. Sentou-se na poltrona que havia logo ali.
“Estranho, o mesmo desenho? O que isso significa!? Será uma insígnia da minha família? Venho procurar meu antepassado e me encontro bem aonde alguém da minha família nasceu. Ou… não… isso não pode ser…” Passou pela sua cabeça o fato de Maybell ser sua mãe. A menina deu um sorriso, pegou o diário a fotografia e foi para seu quarto. Dentro de dias foi a primeira vez que ela dormiu tranquilamente, estava feliz por ter encontrado a foto de sua mãe e de seu pai, em sua cabeça era por isso que conhecia o rapaz: ele era seu pai.
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